Preconceito: adversário a ser driblado

Quando futebol e cinema se confundem… 

Divulgação

Em New Jersey, Gracie. Em Dois Riachos, Marta. No lugar de bonecas e maquiagens, a bola. No cinema, a história real de Elisabeth Shue, que na trama atende por Gracie – a única menina numa família de três irmãos. Todos apaixonados por futebol. Na vida real, uma história semelhante da de cinema. Uma garota boa de bola, que vivia sobre a pressão do irmão mais velho José. Em ambos, o preconceito se materializava através da família.

O motivo se restringia ao fato de que as duas meninas, Marta e Gracie, deram vez ao coração e persistiram em seus sonhos. Se não sabiam que para se tornarem jogadoras de futebol significava quebrarem paradigmas, dentro de casa tiveram bons indícios de que não seria nada fácil. Ainda pequenas, aprenderam a conviver com o machismo sem o saber.

Diferente de Gracie, que perdeu o irmão mais velho – e seu único protetor – Bowen, também jogador de futebol, num acidente de carro, e mais tarde preencheu a lacuna, ao integrar a mesma equipe, Marta e José, hoje, riem de um passado, não tão distante, no qual o irmão se valia do porte físico para bater em Marta – a menininha que tinha o dom dos homens. A contragosto, seguiu. Seguiu como se soubesse que cada tapa seria recompensado.

O desafio de uma foi se adequar ao universo masculino. Literalmente. Gracie conquistou o lugar deixado pelo irmão e teve de se submeter às adaptações físicas, nada fáceis para uma menina. Já a outra, primeiro, aprendeu a não dar créditos às investidas da família, quando faziam de tudo para que ela desistisse da carreira.

Marta aprendeu bem cedo que “coisa de mulher” era batalhar e não vestir cor-de-rosa. Elisabeth Shue e Marta quebraram tabus, mas foi a brasileira quem se deu melhor. Ninguém acreditava que a alagoense, que fugia de casa para dar olé nos marmanjos da rua, fosse se tornar referência no futebol feminino. Como melhor jogadora do mundo, conquistou a mesma quantidade de estrela que a Seleção Brasileira em copas. Abocanhou cinco prêmios entre 2006 em 2010. Aliás, nenhum homem jamais ganhou tantas vezes.

José e a mãe Tereza, que gritava “Não fique jogando com os meninos. Você é uma garota”, tiveram de se render e aceitar que a caçulinha fosse considerada o Pelé de saia. O apelido surgiu aos 16, quando ainda jogava pelo Vasco, no Rio de Janeiro. Um ano depois, já com a verde-amarela, abriu a coleção de ouros com a seleção no Pan-americano de São Domingo. Aos 18, trocou de continente e foi parar na Suécia. Lá, a garota do sertão brasileiro, teve como principal adversário o frio.

Longe do Brasil há oito anos, no mês passado, Marta recebeu um convite para atuar no Vitória de Pernambuco, que disputará a Libertadores em novembro. O empréstimo aconteceria no período em que estivesse férias do Tyresö da Suécia, atual time da atleta.

Em entrevista à Globo.com, o presidente da equipe pernambucana, Paulo Roberto Arruda, diz que a camisa 10 do Brasil não hesita em dizer sim.

– Já tivemos um contato e acertamos tudo. Ela quer vir, voltar ao Nordeste, ficar perto de casa. Se o clube sueco aceitar liberá-la sem custo, Marta vai vestir a camisa do Vitória – espera.

Mesmo eliminada dos Jogos Olímpicos, junto com a seleção, e a quebra da hegemonia no prémio de melhor futebolista do ano, Marta continua no topo das listas. No último dia 25, foi indicada para Bola de Ouro da Fifa e France Football. A escolha foi feita pelas capitãs, treinadoras e treinadores das seleções nacionais. Entre as 10 finalistas, Camille Abily, as americanas Carli Lloyd, Alex Morgan, Megan Rapinoe e Abby Wambach, a canadense Christine Sinclair e as japonesas Miho Fukumoto, Aya Miyama e Homare Sawa, vencedora da última edição.

Atletas que não representam 1% do elenco espalhado pelo mundo, mas que, possivelmente, assim como Gracie, no cinema, e Marta, na realidade, não desistiram. O preconceito é tão recente que, em 1964 (menos de 50 anos), o Conselho Nacional de Desportos proibiu a prática de futebol feminino no Brasil. Os médicos alegavam que o esporte afetava os órgãos reprodutivos da mulher. Somente em 1981 (pouco mais de 30 anos) a decisão foi alterada.

 Para quem sabe o que quer, o preconceito é apenas um adversário. Basta um drible para marcar o gol. No futebol e na vida. Foi assim com Elisabeth Shue, Marta e outras milhares.

* trabalho da disciplina de Cinema, Esportes e Representações, ministrada por Gustavo Bandeira – pós em Jornalismo Esportivo. 

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